notas sobre a pequenez acadêmica parte 1

postado em Jan 22, 2026
tl;dr: como o início de minha jornada acadêmica se transformou num verdadeiro calvário, marcado por crises de ansiedade e febre

um breve contexto

ao longo de minha vida eu tive a ajuda de muitas pessoas, por vezes de maneira inesperada. também consegui resolver várias situações pelo método da força bruta chamada insistência, aliada a gambiarras, jeitinhos e brechas que fui encontrando ao longo do caminho.

também houveram pessoas que tentaram, e algumas tentaram muito, dificultar as coisas para mim ou até mesmo tentar torná-las impossíveis. de uma maneira ou de outra eu sempre consegui dar um jeito. este relato se encaixa nas duas categorias. eu sinto que a maioria das pessoas que tentaram bloquear a minha trajetória agiram - como de esperado - motivadas por um misto de inveja e incompetência.

a pessoa principal deste relato agiu por insegurança. o ano era 2003 e eu continuava a viver uma das piores fases da minha vida, um período que iniciou quando eu tinha 12 anos, em 1988, e parecia que nunca ia acabar. muitos fatores contribuíram para esta fase que durou mais de 15 anos e cujo ponto mais baixo, pelo que eu me recordo, foi por volta dos meus 17/18 anos.

o fato é quem em 2003 eu continuava morando com minha família em um protótipo de casa no jardim santa adélia, em são mateus, zona leste de são paulo. morávamos naquela casa há anos e ela continuava sendo apenas o que deveria ser a garagem de um projeto ambicioso de uma residência que, como todos os muitos projetos ambiciosos do meu pai, nunca saiu da etapa inicial. neste caso, o imóvel não estava nem na fase inicial, não era nem uma versão beta, mal podendo ser considerada alpha.

a casa era um retângulo de tijolos, apenas no reboco cru, com uma laje em cima. tudo era precário, sujo, embolorado, mal acabado e fora do esquadro. goteiras eram constantes, o que tornava o ambiente todo extremamente úmido. mal haviam divisões: apenas um quarto na parte de trás e o banheiro. todo o resto era dividido por móveis.

tudo havia sido construído por nós, em um terreno meio barranco no topo daquela rua que era uma ladeira. logo que nos mudamos não havia água, nem eletricidade e nem esgoto. enchíamos a caixa d’água com uma mangueira que vinha do vizinho e a eletricidade também era fornecida pelo vizinho, através de uma extensão. pagávamos muito mais ao vizinho pela água e eletricidade do que realmente consumíamos.

o chão, de concreto, esfarelava. um dia achamos no lixo de alguém vários pedaços de forração verde - um tipo de carpete ralo. a pessoa deve ter trocado por carpete ou piso e jogou a forração fora. pegamos e cobrimos a maior quantidade de chão possível com aquilo. nada foi colado. os pedaços de forração foram simplesmente jogados no chão. o banheiro também não tinha nem piso e nem azulejos. para evitar que a água infiltrasse muito na parede do banheiro foi colocado um plástico grosso.

por muito tempo a minha cama foi um monte de sacos de cal empilhados em um canto com um colchão fino por cima. a presença de ratos também era constante.

com o tempo a situação foi melhorando um pouco, mas a casa nunca saiu muito disso: nunca teve um acabamento que não fosse apenas reboco, nunca passou de uma laje e, obviamente, nunca se tornou o imóvel planejado - em delírio - por meu pai. não tínhamos telefone, que na época custava o preço de um carro 0 km, então vivíamos quase que isolados.

e mesmo assim havia uma ambição ao que parecia impossível. mesmo assim eu sempre dava um jeito de estar lendo um livro. mesmo assim eu tentava não me isolar tanto e circular por onde as coisas aconteciam na cidade: avenida paulista e arredores.

em 1998 eu trabalhava em uma editora na rua cubatão, no paraíso, como diagramador. e foi nesse ano que entrei no curso de designer gráfico na então faculdade de belas artes de são paulo. eu queria me formar em design, e os únicos cursos na época em são paulo eram na belas artes, na faap, na são judas ou a alternativa de cursar arquitetura na usp.

uma conta que não fechava e uma oportunidade

entrei na belas artes. eu recebia r$ 550,00 de salário. a mensalidade do curso era r$ 500,00. uma conta impossível. simplesmente não fechava. a solução era ficar sem almoçar e não pagar a mensalidade todos os meses, de maneira que no final dos semestres eu tinha que ir até a tesouraria e renegociar a dívida, pedindo para que algum parente fosse comigo e emprestasse cheques para a renegociação.

terminei o curso em 2001 e um pouco antes de terminar o coordenador do curso me procurou e perguntou se eu não queria ser professor na graduação em design gráfico. eu tinha 25 anos, e era tudo o que eu queria. o único porém era que exatamente naquele ano a lei, ou regra, do mec havia mudado e novos professores universitários não poderiam mais serem apenas graduados. a titulação mínima passava a ser especialista.

a solução foi eu me inscrever imediatamente na pós-graduação lato sensu (especialização) em design na própria belas artes. mas havia o mesmo problema de sempre: eu não tinha como pagar. na época eu tinha um escritório de design - o segundo da minha vida - em são bernardo do campo, especializado em web design. o começo do escritório havia sido arrebatador, com a bolha da web no início dos anos 2000, mas logo - por uma série de fatores, incluindo inexperiência pura - estávamos novamente sem trabalho e sem dinheiro (mais sobre esse escritório em um próximo post).

então eu morava em são mateus, trabalhava em são bernardo e ia uma ou duas vezes por semana para a vila mariana à noite, para as aulas da pós-graduação. tudo sem um centavo. eu simplesmente nunca paguei nenhuma mensalidade da pós-graduação. e nunca me cobraram.

apesar de ser uma especialização, o curso era excelente, com professores - a maioria professoras - da puc-sp e da usp. o nível era realmente muito alto e abriu muitos horizontes para mim. a duração era de 2 anos, com a possibilidade de fazer os créditos das disciplinas em 1 ano ou em 1 ano e meio e ter o resto do tempo para escrever a monografia.

só que meu plano era audacioso: terminar tudo em um ano, escrevendo a monografia enquanto eu fazia as disciplinas e trabalhava.

assim eu poderia começar a dar aulas o quanto antes, o que teria - e teve - um impacto extremamente positivo em minha vida e da minha família. para tanto eu contava com o apoio da coordenadora do curso, que também era minha orientadora e me adorava. o fato é que eu era bastante competente e consegui realizar o plano à risca. não somente tive notas máximas em todas as disciplinas da pós-graduação como também consegui escrever a monografia, que foi muito elogiada por minha orientadora.

no meio do caminho havia uma demissão

foi ai que o desastre aconteceu. a verdade é que nada na belas artes era sério. a faculdade - depois centro universitário - tinha (e deve continuar tendo) uma administração familiar e não muito profissional - para dizer o mínimo - e o interesse em pesquisa sempre foi zero. havia a pós-graduação (hoje há um programa de mestrado) apenas para satisfazer os requisitos do mec para que a instituição fosse um centro universitário. e a minha orientadora/coordenadora do curso não deixava barato e sempre batia de frente com a administração. quem já trabalhou em instituições particulares de ensino superior no brasil sabe como é, e isso que naquela época a situação e o salário eram infinitamente melhores do que agora.

quando estávamos para marcar a data da minha defesa, eis que ela foi demitida. não somente ela, mas outras professoras que ela havia trazido para o curso também foram. foi um verdadeiro desmanche de uma estrutura intelectual de alto nível que, para ser honesto, era realmente demais para o nível belas artes.

e o que aconteceu? escalaram alguns professores mestres e doutores da graduação, que eram mais alinhados com os baixos “valores febaspianos”, para os lugares vagos na pós-graduação.

será que planos ambiciosos são sempre bons?

o coordenador da graduação em design gráfico tinha planos ambiciosos para mim (claro, no contexto do que seria ambicioso naquele ambiente). embora eu não tivesse experiência como professor, eu tinha uma reputação construída como aluno e eu sabia que ele mantinha certo contato com a minha (agora ex-) orientadora sobre meu progresso.

neste submundo havia uma posição em particular que era considerada prestigiosa: a de orientador principal dos trabalhos finais de graduação (chamávamos de tgis). era prestigiosa porque dava visibilidade, você lidava apenas com as turmas do último ano do curso e haviam horas alocadas para orientação - um luxo para quem ganhava por hora. e era exatamente esta posição que o coordenador havia reservado para mim, já que ele queria uma nova direção para os trabalhos finais, uma visão mais nova e ousada. eu, em minha inocência, tinha concordado, claro! afinal, desafios nunca foram um problema para mim. só que eu não tinha uma visão mais geral da situação, não havia - como eu gosto de fazer - mapeado o ambiente. e essa era uma posição que muitos professores queriam ocupar. e muitos deles estavam há anos na belas artes, esperando por esta oportunidade. e muitos haviam sido meus professores na graduação.

e a minha nova orientadora era quem? era a professora que ocupava exatamente esta posição na graduação. e por seis meses minha vida foi transformada em um inferno, boa parte por causa desta pessoa. na minha cabeça, o trabalho estava pronto (e estava!), só que em nosso primeiro encontro, mesmo sem ter lido nada do que eu havia escrito, ela foi taxativa: eu não ia defender minha monografia (sim, havia banca de defesa) antes de completar os dois anos de curso.

as sugestões dela para o meu texto eram poucas e eu as fiz rapidamente. mesmo assim ela não me autorizava marcar a defesa.

dinâmicas do poder

eu demorei um tempo para perceber a dinâmica do poder que estava em jogo. eu, um jovem de 27 anos desafiando uma professora formada pela esdi, doutora pela usp, consultora de design da fiesp e que, embora nunca tenha publicado muito, era considerada uma grande pesquisadora e que estava, por talvez orgulho, emperrando a minha vida.

eu tive que conversar com a nova coordenadora da pós-graduação, mostrar a ela o meu trabalho, o meu texto, explicar a situação, e ela se convenceu de que o que eu tinha era suficiente para eu defender.

este processo durou seis meses, em que eu tive crises de ansiedade, algumas febres, e vontade de desistir. a comunicação com minha nova orientadora era praticamente não-existente. era impossível ter um tempo com ela. ela estava sempre ocupada e não respondia emails. quando respondia era sempre de uma maneira muito negativa.

fiz minha defesa. tirei a nota máxima. meu trabalho foi muito elogiado pela banca e comecei minha carreira como professor no mês seguinte, na posição de orientador dos trabalhos de graduação. isso mudou minha vida para muito melhor. depois eu descobri que a vida dessa professora, embora parecesse ser bem sucedida, não ia assim tão bem.

logo depois ela saiu da belas artes - ou diminuiu drasticamente a sua carga horária lá, não me recordo. perdemos o contato. hoje ela é professora na usp.

essa é a vida acadêmica, mesmo em instituições irrelevantes como a belas artes: sempre tem alguém ou um grupo conspirando, tentando passar o pé, puxar o tapete. é uma disputa por um pequeno poder. por um poder que simplesmente não existe.

infelizmente, esta não foi a última vez que algo assim aconteceu comigo. foi apenas a primeira.

o que tocou enquanto eu escrevia este post

  • come as you are - nirvana
  • malibu - sharon van etten
  • the sad punk - pixies
  • waiting for the sirens’ call - new order
  • cinema - castlebeat
  • girls on t.v. - tashaki miyaki
  • pale shelter - tears for fears
  • passat dream - pavement
  • bury it - chvrches
  • teen age riot - sonic youth
  • ceremony - new order
  • like kids - suede
  • forever chemicals - placebo
  • it’s common (but we don’t talk about it) - bratmobile
  • star sign - teenage fanclub
  • well done - idles
  • cheer it on - tokyo police club