patrícia fraga (in memoriam)
de são paulo para mauá, para são paulo, para porto alegre
o ano era 1984, e eu tinha 8 anos. eu morava em porto alegre. minha família é de são paulo, ou melhor, eu nasci em são paulo. no ipiranga. eu passei os primeiros anos da minha vida morando em mauá, na região do abc. morava na casa da minha avó. minha avó tinha uma casa enorme, em um bairro terrível, chamado vila assis brasil. ela morava na rua afonso tomás, 43. no fim do mundo. a casa ficava no começo da rua, que era sem saída. no final da rua tinha um balão, onde jogávamos bola. o balão dava para um morrão.
a casa ficava em um terreno estranho, porque começava no nível da rua, mas ia ficando íngrime junto com o morro. então eram quatro estágios: a garagem e do lado da garagem um quarto e cozinha que minha avó alugava. subia um lance grande de escada, tinha a casa da minha avó, que era bem grande, mas nunca foi terminada. subia mais um lance de escadas e tinha uma casa em um andar intermediário, que era uma casa bem estranha. era um quarto, cozinha e banheiro onde por muito tempo moraram minha tia, meu tio e três filhas. e subindo ainda mais um lance de escadas tinha outra casa, bem pequena, mas com um quintal enorme. não fazia sentido, porque daria para ter construído uma casa bem grande lá, mas era minúscula. tinha um banheiro, uma cozinha, uma sala e um quarto, tudo apertado. todas essas casas em todos esses andares foram construídas por alguém da minha família. a casa pequena no último andar foi construída por um tio meu, irmão do meu pai (é minha família paterna), e originalmente a casa tinha um aquário na parte de fora, o que era uma loucura só.
quando eu era criança a gente morava em um quarto da casa grande, principal. eu, meu pai e minha mãe morávamos neste quarto. minha avó me amava muito, talvez tenha sido a pessoa que mais me amou nesta vida. eu era tudo para ela. fui o primeiro neto e ela e meu avô eram meus padrinhos. esta casa principal tinha sido construída pelo meu avó, o que também era uma loucura. pense em comprar um terreno em um lugar distante, onde só tinha mato e barro. ai você vai e constrói uma casa, cuja fundação e garagem (primeiro andar) eram feitas com pedras enormes. e você usa seus filhos como mão de obra para ajudar a construir.
quando eu nasci meu avô já tinha tido um avc que o deixou com metade do corpo paralisado e sem falar. ele era uma pessoa super inteligente, que mesmo com metade do corpo paralisado desenhava, pintava e tinha uma bancada de ferramentas de madeira maciça que ele mesmo construiu. quando ele teve o avc ele trabalhava na general motors, em são caetano do sul. minha família é de operários, de metalúrgicos do abc. quando não estava fazendo alguma atividade, mesmo com suas limitações físicas, meu avô estava entrevado em uma poltrona, na sala gigante da casa, vendo televisão. era uma mente inquieta, inteligente, presa dentro de um corpo deficiente. ele ficou assim por mais de 40 anos.
contam que eles tinham uma vida confortável antes de tudo isso. moravam em são caetano do sul. meu avô tinha um emprego bom na general motors. tinha um jeep. inventava coisas. já tinham três filhos, todos homens e meu pai era o caçula. até que aconteceu a tragédia que eu acho que foi o divisor de águas da minha família e que impactou não apenas eles diretamente, mas também a vida de todos os netos, o que me inclui diretamente. eu sinto que minha família ainda está tentando se recuperar desta tragédia. eu digo isso porque os irmãos e irmãs dos meu avós tiveram uma vida confortável, enquanto a parte da minha família direta foi jogada em uma espiral de tristeza e loucura.
meus avós já tinham estes três filhos, mas minha avô queria muito uma menina, era o sonho da vida dela. até que ela engravidou e teve, finalmente, a menina que ela tanto sonhava! só que a criança morreu depois de três meses. desolada, minha avó decidiu esconder isso do mundo, e “adotou” um outro bebê, uma outra menina, da mesma idade. tudo isso é nebuloso e eu só fiquei sabendo dessa história quando eu já era adolescente. minha mãe me contou. ninguém falava disso. como minha avó adotou essa criança? ninguém sabe. o que todo mundo desconfia é que minha avó foi até algum hospital e pegou a criança de alguma mãe que não a queria. ou algo pior. não dá para saber. como ela registrou a criança no nome dela? ninguém sabe, mas naquela época, década de 1960, a situação era completamente diferente e isso não devia ser tão difícil.
para realizar seu plano de esconder de todo mundo o que aconteceu, minha avó convenceu o meu avô de se mudarem de são caetano do sul, uma cidade que já na época era bem desenvolvida, para algum lugar longe. e foi quando compraram esse terreno neste lugar lamacento e se mudaram para lá. para esconderem de todo mundo a criança, para fingirem que a filha deles não havia morrido e que colocaram outra no lugar. não teria sido muito mais fácil contar a verdade? o que passou na cabeça deles? vergonha, talvez?
a família do meu avô era italiana e a da minha avó espanhola. eu conheci o meu bisavô por parte de minha avó, o espanhol, seu nome era marcelo. ela falava um português todo enrolado e mais pro final da vida não falava português nenhum, só espanhol. e só xingava todo mundo em espanhol. mais novo ele tinha uma quitanda em são caetano do sul e foi onde meus avós se conheceram. a minha teoria é de que a mais pura loucura corria neste sangue espanhol.
logo que se mudaram para mauá, meu avô tinha uma arma. conta a história que minha avó estava desconfiada de que meu avô tinha um caso com uma vizinha, o que eu não duvido. um dia minha avó pegou essa arma e foi tirar satisfação com a vizinha (por que não com o meu avô?). chegou no portão, chamou a vizinha e deu três tiros. ainda bem que errou todos.
ela também tentou se matar pelo menos duas vezes. em uma dessas, a última, tomou todos os remédios que tinha em casa. meu avô tomava muitos remédios. por sorte um dos meus tios chegou um pouquinho depois e viu que ela estava estranha. minha avó se chamava angela, sem acento, mas todo mundo a chamava de nena, que era o apelido dela de criança.
meu tio perguntou o que tinha acontecido e ela respondeu: “eu me matei”.
vendo as caixas vazias de remédio, correram para o hospital e ela foi salva graças a uma lavagem gástrica.
eu tenho certeza que meu avô tinha casos pelo bairro inteiro, que depois foi se desenvolvendo aos poucos, mas sempre foi – e acho que sempre continuará sendo – periferia extrema e total. prova dos casos extraconjugais do joão (nome do meu avô) é que a história conta que logo que eles se mudaram para lá – antes dele ficar doente – havia só uma outra família morando lá. a família da dona nenê. a família da dona nenê era de negros retintos. eu sempre ia lá brincar e passava um tempo durante o dia com eles. eles tinham um dobermann que eu achava assustador e que uma vez avançou em mim.
a família da minha avó e da dona nenê eram muito próximas. talvez até demais. a dona nenê tinha muitos filhos – não me lembro quantos. e o mais novo era também afilhado da minha avó e do meu avô. e também se chamava joão, como meu avô. e era o único filho branco da dona nenê! e mais: tinha os olhos de um azul profundo, como o meu avô.
enfim, depois que a família de meu pai se mudou para a vila assis brasil, em mauá, parece que meu avô entrou em uma depressão profunda (embora naquele tempo não se usasse esse termo). eu tenho quase certeza disso porque a depressão é algo que também corre solto em nosso sangue. e começou a beber muito, e todos os dias. beber de subir ajoelhado as escadarias infindáveis da casa. entendo perfeitamente. o que mais fazer diante da desgraça que a vida virou? tendo saído de uma vida confortável, perto do trabalho, de um trabalho que ele amava e onde tinha reconhecimento, para um lugar longe de tudo, metido no meio do barro e tendo que construir com as próprias mãos uma casa. tudo para manter uma mentira.
poucas pessoas sabiam dessa história da filha da minha avó, da minha tia. e a nena morreu sem ter contado a verdade para a minha tia. era um pacto da mentira e do silêncio. porque minha tia não se parece com o resto da família. parece que uma das minhas primas – filha da minha tia regina (esse é o nome dela) – disse há alguns anos atrás o óbvio: “mãe, você não percebe que você não era filha biológica da vó?”. isso não importa. a minha avó amava minha tia. e amava minhas primas também. a pergunta que fica é: o porque disso tudo? e nunca saberei a resposta.
de tanto beber meu avô teve esse avc que o deixou paralisado. de novo, estamos falando dos anos 1960. a medicina não era como hoje. e isso foi mais um passo em direção ao declínio. ele foi aposentado por invalidez e sem poder trabalhar a renda da casa caiu vertiginosamente. e os danos financeiros e, claro, psicológicos são sentidos em minha família até hoje.
a situação na casa da minha avó, e na família do meu pai, sempre foi tensa. era uma tensão que se sentia no ar. uma das cenas que eu me lembro bem, eu devia ter quatro anos no máximo, foi um dia em que meu pai chegou bêbado em casa, de noite. era um dia frio e em mauá faz bastante frio no inverno. eu fui falar com ele, na cozinha enorme da casa da minha avó. ele não me reconheceu e disse que eu não era o filho dele. foi a primeira de muitas vezes em que eu ouvi isso. ele teve um surto, foi chamada a polícia, ou os bombeiros, ou algo assim. a única coisa a mais que eu lembro é que ele foi levado em uma camisa de força.
a única linguagem que funcionava verdadeiramente naquela casa era a linguagem da violência.
não sei bem quando, mas logo meu pai arrumou um emprego que era bom, em uma indústria petroquímica chamada poliolefinas. a sede ficava do lado onde morávamos, em mauá, mas logo nos mudamos para itaquera, na zona leste de são paulo, em um apartamento da cohab.
meu pai trabalhava em turnos, o que significa que em uma semana ele trabalhava à noite, na outra pela manhã e na outra à tarde, o que é bastante puxado e exige muito, já que o corpo e a mente precisam estar constantemente se readaptando a diversos horários. e trabalhar no período da noite significava ter que dormir durante o dia, o que também exigia um silêncio em casa.
em 1982 a poliolefinas abriu uma segunda fábrica em triunfo, no rio grande do sul, e meu pai foi transferido para lá, o que nos levou a mudarmos primeiro para canoas, depois para esteio, e por fim para porto alegre, onde ficamos até 1988 ou 1989, não me lembro bem. mais sobre nossa vida no rio grande do sul em um post futuro.
o que importa por hora é que chegamos, finalmente, a patrícia fraga.
o meu primeiro amor
a patrícia fraga foi o meu primeiro amor, aqueles amores da infância, da escola primária. estávamos na terceira série do primário quando caímos na mesma classe no colégio são francisco, uma escola particular católica no norte de porto alegre, cujo fundador era um monsenhor. e por acaso, eu e a patrícia sentávamos um do lado do outro.
ela era simplesmente linda. tinha os olhos de um azul profundo e uma sagacidade enorme, aliada a uma grande inteligência.
ela era uma das queridinhas da professora e estudamos sempre na mesma classe depois da terceira série, até a sétima série, quando minha família voltou para são paulo. mas nos sentamos lado a lado apenas na terceira série.
eu era, em certa medida, o contrário dela. eu era tímido, introspectivo, tinha dificuldades em expressar meus sentimentos e não conseguia engatar uma conversa. já ela conversava com todo o mundo.
lembro bem de um dia em particular, quando eu fiquei mordendo o lápis, provavelmente de nervoso - eu era uma criança muito nervosa e ansiosa - e o redor da minha boca ficou todo sujo de grafite. quando ela viu, ela pegou um lencinho de papel da mochila dela e disse: “tem alguma coisa errada na sua boca, deixa eu limpar”, e carinhosamente passou a limpar o meu rosto. eu queria abrir um buraco no chão e sumir. hoje eu vejo a diferença que faz ser uma criança tratada com carinho e amor (provavelmente o caso dela) e ser uma criança como eu, super inteligente e criativa mas tratada do modo como eu descrevi acima.
ela morava em uma cidade da grande porto alegre, chamada alvorada, cuja divisa com porto alegre é muito próxima do colégio são francisco. o pai dela era vereador em alvorada, do pdt, e quando a constituição federal brasileira de 1988 foi homologada e lançada, ela levou para a escola uma cópia em brochura que o pai dela recebeu.
ela também era torcedora do grêmio, assim como eu (coisa que eu me arrependo, porque é um time majoritariamente de torcedores facistas).
ainda na terceira série ela sempre ia embora com um aluno mais velho, de uma série bem para a frente da nossa. ela ia de ônibus para a casa, e eu ia a pé. assim que saíamos do portão principal do colégio, virávamos para a esquerda, uma descidinha, e na primeira rua tinha o ponto do ônibus dela. várias vezes eu quis me declarar para ela nesse pequeno caminho que algumas vezes compartilhávamos até ela ir para o ponto de ônibus. uma coisa bem clichê infantil. eu fica sonhando acordado com isso. ficava pensando nela em casa, o combo completo. só que quase sempre ela estava com esse aluno mais velho. um tempo depois ela me disse que ele era o namorado dela! quem namora na terceira série? claro, devia ser um namorico infantil… ou não. nunca saberei.
depois da quinta série, quando passamos a ter um professor / professora para cada matéria acabamos nos afastando um pouco. havia mais liberdade e podíamos escolher onde sentar. ela passou a sentar na frente da sala e eu cada vez mais para o fundo (outro clichê). e partir desse ponto ela passou cada vez mais a consolidar uma imagem de aluna referência em termos de inteligência na classe. ela falava com elegância e com eloquência. mas ao mesmo tempo passou a ter uma fama de chata, principalmente entre os meus colegas de turma.
havia um professor de geografia que era particularmente “fã” dela, ele se chamava ney raphael, e era bastante estiloso. ele sempre estava bem vestido, mas de uma forma casual, estava sempre com um rayban wayfarer, contava sobre viagens para o exterior e tinha um fusca. minha mãe, a rainha dos apelidos depreciativos, o chamava de “gay raphael”. na sétima série a gente achava que ele tinha um caso com a professora de matemática.
eu sempre tive uma memória muito boa, e entre as pessoas que eu nunca esqueci a patrícia fraga sempre ocupou um lugar especial. depois que eu me mudei para são paulo, terminei a escola, fiz duas faculdades, especialização, mestrado e doutorado e já morava em londres, eu decidi pesquisar na internet para ver o que eu achava sobre ela. eu tinha essa imagem de que ela poderia ter virado uma intelectual, ter seguido uma carreira acadêmica, como eu. isso lá para 2011 ou 2012.
pois bem, eis que eu a achei no facebook e pedi amizade. obviamente ela não se lembrava de mim. eu disse a ela que tínhamos estudado no são francisco da terceira até a sétima série e falei do professor ney rafael. ela se limitou a dizer que tinha um crush no ney raphael e que eu deveria ser uma pessoa bacana, porque eu era gremista (puff… ela viu no meu facebook). nossa conversa se limitou a isso, mas eu descobri que não, que ela não tinha virado uma “intelectual”, pelo menos não no sentido acadêmico, que nem faculdade ela tinha terminado – acho que começou a fazer publicidade (para minha decepção, já que tenho preconceito com publicidade) mas não terminou – e que se especializou em “estética” (não, não a estética de schiller, mas a relacionada a unhas, maquiagem e corte de cabelo) e tinha se mudado para santa catarina. minhas pesquisas mostram que ela era proprietária de um centro de estética lá.
também descobri que ela era apaixonada por carnaval, e lembrei vagamente que ela já frequentava as matinês quando éramos crianças, coisa que minha família nunca fez. no máximo minha mãe passava as madrugadas vendo os desfiles das escolas do rio de janeiro na televisão. na verdade eu fui uma única vez numa matinê de carnaval quando eu era criança. minha avó de mauá me levou.
in memoriam
e daí que se passou mais de uma década e agora, em 2026, já há alguns anos fora e longe de facebook, eu resolvi me atualizar na internet sobre a vida da patrícia fraga e eis que descubro que ela morreu em 2021! achei um perfil no instagram chamado “patrfraga – Patricia Fraga (in Memorian)”, com a foto dela, do lado de um balão com os dizeres “feliz 2021”. o perfil é fechado.
nova pesquisa e chego a um post no facebook do “cete - centro de estudos e pesquisas sobre tema enredo”, de 14 de dezembro de 2021, que diz, acompanhado de fotos dela:
"Ontem à noite ficamos consternados com a notícia do falecimento da nossa Ceteana Patrícia Fraga. A Pati foi aluna do Curso de Tema Enredo; palestrante em 2014; recebeu o troféu de Melhor Enredo no ano de 2012; além de ser jurada e desempenhar muitos outros papéis junto ao CETE.
A Pati era apaixonada por carnaval. Tocou na bateria, foi coordenadora, colou muita fantasia. E junto do Sérgio Peixoto esteve também na montagem dos carros alegóricos do Desfile do 20 de Setembro. Aquela pessoa entusiasta pela nossa cultura popular.
Nós sentimos muito a sua perda. Desejamos muito força pra família e amigos. O velório iniciou às 11h30 e o enterro será às 16h, no Cemitério Parque Jardim da Paz, na Capela F"
fiquei triste, obviamente. mesmo que ela não se lembrasse de mim ela faz parte de importantes memórias afetivas minhas. não sei qual foi a causa da morte. talvez covid?
o que tocou enquanto eu escrevia este post
- coração selvagem - belchior
- à primeira vista - duo gisbranco
- divina comédia humana - belchior
- medo de avião - belchior
- o mundo é um moinho - cartola
- alucinação - belchior
- a palo seco - belchior
- a lua e eu - cassiano
- apenas um rapaz latino americano - belchior
- amor - secos & molhados
- tudo outra vez - belchior
- comentário a respeito de john - belchior
- na rua, na chuva, na fazenda - hyldon
- na hora do almoço - belchior
- sujeito de sorte - belchior
- lumiar - beto guedes
- paralelas - belchior
- velha roupa colorida - belchior